Um outro um


No livro  Um outro um” , poemas curtos são intercalados por Crônicas e imagens,  foi publicado pela Editora Escrituras/ São Paulo,  no ano de 2001, lançado na X Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro, e no Museu da Imagem e do Som em Maceió/AL.

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 Trechos e imagens do livro

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Outras verdades Não queria assustá-los e nem percebi que estavam procurando pequenas porções de comida. Sem querer, fiz um grande barulho ao abrir a janela e assustei meia dúzia de passarinhos. Os jornais afirmam ser o mundo uma grande tragédia. Pássaros cantando afirmam outras verdades, nem sempre trágicas, nem sempre harmônicas. Já os peixes apenas nadam e instalam sua existência no espaço aquático. (Um outro um, 2001)

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Ofício de garimpeira Associei minhas raízes às pedras que não são ansiosas nem procuram significados para coisas e fatos. Mas compartilho do mesmo desejo de solo, querem saber das nuvens, de preferência as bem gordas. E não se importam se eu disser que as mais ou menos gordas são rinocerontes namorando cavalos. Imaginei que estava chegando e apenas começo a desempenhar melhor o ofício de garimpeira. (Um outro um, 2001) ……………………………………………………………………………………………………………………..

Preview do Planeta Fazia calor. Parecia que o dia não queria terminar. Movimentei as pernas, passo a passo, saí de casa rumo ao desconhecido. Queria descobrir um lugar onde me coubesse. A casa estava vazia de significados e não me cabia repleta de instigação. Não sabia se ia ou vinha, se era pessoa ou  estava numa forma não humana. Dentro da minha pessoa, nada estava no lugar.  Saí de casa para me consumir, mas a cidade tentava me vender seus  produtos. Havia beijos expostos em back lights e vitrines. Perguntei aos animais como perder o medo de ganhar ou perder.  Fui até Paris onde estive sozinha e tranqüila; no Senegal sosseguei; no Pólo Sul hibernei e sonhei acordando em São Paulo, onde  destilei lágrimas que escorriam de olhos cansados com a imprecisão dos meus sentimentos.  Em vários lugares estive e ainda fiquei sem partir. Em cada esquina, em cada loja, em cada agência de viagem, assaltando uma possibilidade de preenchimento. No Mediterrâneo molhei um lado do continente europeu,  levando pedaços da Grécia até a África. Mas de onde estou até o amazonas faz anos que não encontro o caminho de casa. As roupas no varal deixam  tudo branco. O azul da tarde se mistura ao branco dos lençóis. No oxigênio que  o planeta todo bebe, a Oceânia e a América do Sul  fizeram um pacto de água. O  calor  do centro da terra pode servir de combustível, transmitido via satélite?  E se for  motivo para mais uma guerra, contenda por domínio de tecnologia? ########################## ………………………… O espaço interno se abre por fendas e, em volta do planeta, várias correntes de ar  impermeabilizam o nosso pedaço. Vivemos numa grande bagunça mas está tudo muito bem organizado. Se existir continuidade infinita  no espaço, existirá tempo para se visitar outros planetas. Deve ser assim. O cosmo é um papo muito largo, cabem muitas palavras e múltiplas vidas. As nuvens não fecham o céu, estão em preparação de chuva. Entrei num celeiro de idéias e faço um alargamento intencionalmente inexato. A incongruência dos fatos reeduca o muito educado. De São Luís, o Piauí é plano. Um rio trouxe do Maranhão, notícias dos Astecas  que atravessaram o estreito de Berhing procurando um abrigo anti nuclear. Já faz muito tempo que a terra se prepara para partir, mas o sol não deu permissão para o planeta  sair de sua tutela. (Um outro um, 2001) ……………………………………………………………………………………………………………………..

Superfície contínua A calçada, por ser de natureza passiva, não sabe para onde vai cada um dos que pisam sua superfície. Sabe menos ainda sobre o dia e a hora em que se deu o abandono da lua ou o desespero do sol. Mas aceita ser pisada por pés descalços ou calçados de botinas, sandálias, tênis, altos saltos ou rasos; caminhando ou correndo. A calçada recebe tudo sem reclamações, sem computar a quantidade de transeuntes e sem requisitar que lhe deixem alguns trocados para sua recuperação. Apenas cumpre sua função de cimento e pedras. (…)

Cada rua é formada de cores e formas diferentes, mas as calçadas não apresentam diversidade. Em geral, contínuas, fazem ligação entre o vizinho do lado direito e o vizinho do lado esquerdo. E mais contínuo ainda é o meio-fio.  Um fio que se estende do começo ao fim da rua.  As calçadas servem de abrigo para os desatinos das casas, moradores e transeuntes. Talvez por isso quase sempre encontro nas superfícies, pedaços de tristezas e fragmentos de rebeldia dispostos num mosaico que o  vento se encarrega de transformar  em  caleidoscópio. Toda ponte se inicia num ponto de cimento adicionado, bilhões de vezes, a vários pontos de cimento e ferro, formando um bloco compacto. O produto final aponta poucas pistas sobre o material utilizado e o esforço gigantesco,  necessário para sua construção. Com a ponte, uma rua se liga a outra rua por onde transitam pessoas, bichos e carros; onde os amigos e inimigos se encontram. Pode ser redonda, quadrada ou retangular, pode ser mais do que desejou o seu arquiteto, pois, quem inventa ponte, alimenta esperança e vontade de reencontro. Quando uma rua passa por dentro de uma ponte e se encontra com outra rua, aparenta displicência e encobre a  explosão das fibras nervosas de cada transeunte. Ao atravessar a ponte, conexões diversas se estabelecem. Uma  chuva anuncia o final do verão e as ruas respondem com um cheiro molhado-quente. Quem mais gosta disso é o solo que mata sua sede.  Após a travessia, ficaram apenas lembranças. É chegado o momento de pisar no chão e celebrar o ponto de chegada que é também o ponto de partida. Nem existe tempo para comemoração e já é chegado o momento de iniciar os preparativos para a próxima viagem. (…) Cada ponte representa um espaço de ruptura, costurado por necessidade de travessia.  A chuva trouxe pequenos pedaços das nuvens, um pouquinho das penas dos pássaros e partículas de meteoritos, porque o céu desejou ser terra , desejou ser lama.  Com a chuva, a terra  ganhou gosto de céu. Em todos os cantos ficou cheiro de terra satisfeita, depois de ter sido alimentada, de ter se deixado invadir por fragmentos celestes. (Um outro um, 2001)

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Noção do perigo Incomodo menos o vizinho quando faço pouco  barulho. Se ando devagar, diminuo a probabilidade de matar seres vivos pequenininhos. Mas o que faço com a estabanada vontade de sair, andar rápido, roubar conchinhas da praia e arrancar flores para o meu amor?  O  que seria de mim sem a sombra que uma árvore me forneceu no meio do dia de ontem? Se as acácias não sujassem as calçadas, apenas latas, plásticos, papéis e orgânicos menos nobres enfeitariam a minha caminhada. O que faço com meu corpo que expulsa dejetos, devora vidas e não perde a noção do que acontece no lado de fora? O que seria de mim sem a árvore que na semana passada limpou a minha cabeça? Habitada por notícias, traumas, links, letras, faixas, files  e outras palavras, depositou tudo que tinha num  tronco. O Co2 de cada informação foi processado nas folhas. Quando terminei a refeição,  limpei um cisco no olho e andei, pisando no que estava abaixo da visão. O que faço com meu corpo que corre e esquece do que fica antes da esquina? (Um outro um, 2001)

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Céu 190 graus Os  buracos e curvas mal sinalizadas pediam ao automóvel muita calma acelerada pela mais necessária velocidade, capaz de chegar ao objetivo desejado. O terraço de uma casa branca prestava atenção nas serras, que se entrecruzavam uma dentro da outra. Da estrada não enxerguei moradores, apenas imaginei um homem de olhar distante sentado na frente da casa, uma ou mais mulheres trabalhando e crianças brincando. Do automóvel fixei meu olhar no caminho e descobri que a estrada fornece um ponto fixo. A cada curva, desvio ou elevação, o ponto continuou sendo uma linha reta. A estrada sofreu conseqüências do tempo por onde passaram automóveis e passageiros ansiosos por mais espaço no  tempo que oferece apenas a cota única de cada instante. Os automóveis deixaram impregnadas as marcas de pneus, combustíveis e óbitos.  Numa das curvas,  várias cruzes indicavam o quanto o lugar é abismo de almas e carros. Noutro momento, a estrada virou infinito azul. Tudo se dissolveu. Resolvi desistir da perseguição, pois as nuvens já tinham tomado o ponto para si. A quase tarde e quase noite dá consentimento para o olhar ultrapassar as barreiras mais convencionais e as distâncias mais duras. É possível ver um horizonte 190º. O céu beira o chão e no chão aparecem estrelas de barro. (Um outro um, 2001)

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Mais de uma crônica Um mendigo pede comida no mesmo cruzamento em que uma miss pede atenção. Numa carroça, um homem arrasta sua roça,  numa barbearia  retratos 3 x 4 assistem à cidade numa festa de passageiros que se apressam em dispersão e  no  meio da confusão,  os ambulantes  vendem  alfinete, martelo, caneca, pente, rádio, chaveiro, lixa de unhas e bonecas importadas. Na  calçada, os gritos significam cuidados maternos e na portaria de um prédio, o silêncio é reverência ao elevador. (Um outro um, 2001)

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Urb 2 Na desordem da rua nem os pombos bebem água pura.  Uma panela de milho esquenta a rua do mercado. Vendedor tem  pano para  enxugar  a chuva. Sente-se antes de beber, compre antes de reclamar de quem vai e volta para o mesmo lugar. O alto-falante grita e o ambulante pega no seu braço. Foi outro, foi outro que comprou o anel de brilhantes  da garota do outdoor. Desleixada, deixou o carro vermelho despencar. Mas foi bom,  serviu de guardanapo. Um menino  sentou e falou alto, sonhou com um hamburguer e faturou três quase retalhos de pizza. Todos colocados em cima de um dos pedaços do carro. Melancias esteticamente bem comportadas estampam a calçada de uma loja semi-fechada  abrindo o azul de uma estudante. Um garoto de cabelo vermelho reclama da pingueira caindo  na sua cama  embaixo da marquise, na rua estreita da tarde  de sexta chuvosa (…). (Um outro um, 2001)